A prática do Dogtrekking faz bem aos cães?

 

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Uma atividade que tem crescido bastante entre os esportistas e apaixonados por cães, é o dogtrekking. Nunca ouviu falar? Pois saiba que, embora por aqui seja uma novidade, na Europa a modalidade já é bastante conhecida desde o século XIX.

De acordo com Iracema Braun, fundadora do The Dog Runner, naquela época, os cães eram como os “cavalos”, do povo, especialmente dos mais pobres. “Os grandes cachorros foram usados como carregadores para fornecer bens e comida para a população em regiões fechadas como nos Alpes. E, para isso, eles tinham que percorrer grandes distâncias”, explica.

Hoje o esporte é muito praticado na Alemanha, República Tcheca, Áustria, Bélgica e Polônia. Desde o ano 2000 há muitos campeonatos nesses países e a partir de 2012 existe um campeonato europeu.

Aqui pelo Brasil o esporte ainda está engatinhando, mas Iracema enfatiza que há três anos já reúne grupos para praticar caminhadas com distâncias longas em trilhas nas montanhas da região serrana de Rio de Janeiro, nas cidades de Petrópolis, Teresópolis e Nova Friburgo.

Dogtrekking x caminhada

Mas no que o dogtrekking europeu se diferencia de uma caminhada comum? Simples: na distância percorrida e no grau de dificuldade. “Provas com a distância curta entre 40 e 80 quilômetros chamam de doghike e com mais de 80 quilômetros chamam de dogtrekking”, esclarece Iracema, contando como tudo funciona: “O dono usa um cinto e o cão um arnês de tração. Ambos são conectados através de uma guia longa e elástica. Nas provas, o cachorro corre/anda na frente e deve puxar o dono. São caminhadas em trilhas, normalmente em regiões rurais, nas montanhas ou florestas”, detalha.

Segundo ela, as caminhadas que organiza são mais lights que o modelo praticado na Europa: vão de 6 quilômetros para iniciantes a 15 quilômetros para os em estágio avançado.
Cuidados com a saúde dos cães

Se você ficou preocupado com o impacto que isso pode ter na saúde do cão, saiba que, assim como para os seres humanos, as caminhadas e os exercícios físicos podem ser benéficos para os animais, impulsionando a queima de energia, prevenindo várias doenças, além de estimular a socialização do pet e de fortalecer a união com o dono, entre outros benefícios, detalhados ao final da matéria.

De acordo com Eduardo Capasso dos Anjos Afonso, veterinário da Provet e especialista em ortopedia, a atividade física é excelente para o animal, mas é preciso ter orientação do médico veterinário. “Embora para os seres humanos, este tipo de trilha seja uma coisa séria, para o cão não passa de uma brincadeira e um passeio. Só haverá prejuízo para eles se apresentarem alguma doença concomitante, ou se o dono não respeitar os limites dele”, ressalta.
No entanto, além de serem avaliados clinicamente antes da caminhada, é fundamental que os cães passem por consultas com especialistas em ortopedia ou por um fisioterapeuta. “Os cães submetidos a esses tipos de percursos devem ter articulações saudáveis. A avaliação ortopédica pode ser complementada com exames radiográficos, com intuito de diagnosticar doenças como a displasia coxofemoral e cotovelo. Essas doenças podem apresentar manifestação clínica mais importante quando submetidas a impacto ou quando a tolerância às atividades físicas do cão não for respeita, desencadeando, secundariamente, doença degenerativa articular”, explica Eduardo.
É importante ressaltar que estruturas importantes como articulações, músculos, ligamentos e tendões podem ser afetados por um possível excesso. Mas, como medir esse “a mais”? Segundo o especialista, o excesso será todo o exercício a mais que o cão estará sendo submetido, sem respeitar os limites dele. “Tais excessos podem ser minimizados quando é oferecido momentos de descanso de 20 a 30 minutos, com água fresca e alimentação em pouca quantidade”, salienta o ortopedista.
Outra alternativa para minimizar o desconforto do cão é tentar fazer os percursos em épocas com temperaturas mais amenas e nos horários mais fresquinhos, logo pela manhã, por exemplo. “É importante escolher a caminhada adaptada para os cachorros onde há bastante sombra e água no caminho para se refrescar. Evitar caminhadas no pleno sol, em asfalto ou estrada de terra, para não queimar as patas”, observa Iracema, fundadora do The Dog Runner.
E não é só isso! Cães que praticam o dogtrekking devem ser tratados como atletas. “O condicionamento e a resistência física devem ser adquiridos com o tempo, assim aumentando a atividade e a intensidade gradativamente”, enfatiza o veterinário Marcio Waldman, fundador da PetLove. Ele sugere ainda que também seja avaliada a condição cardiovascular do animal. “Doenças pregressas também devem ser analisadas”, acrescenta.

Afinal, quem pode e quem não pode?

De acordo com o veterinário Eduardo Afonso, especialista em ortopedia, quase todos podem participar das caminhadas. Até os animais idosos, desde que os mesmos estejam acostumados e condicionados com esses exercícios, e principalmente não tenham doenças secundárias, como as cardiológicas. Ao contrário, podem acompanhar o dono, garante.

Já os obesos, muitas vezes são submetidos a atividades com o intuito de alcançar redução de peso, embora existam situações em que a obesidade favoreça ou desencadeie lesões ligamentares por sobrecarga. “Isso pode agravar com os exercícios de impacto ou de longas jornadas. Por isso, esses cães devem estar sempre sendo avaliados por um médico veterinário”, alerta Eduardo.

No entanto, alguns cãezinhos precisam ficar de fora da aventura. Bulldogs, Pugs, lhasa e Boxer são exemplos de raças braquiocefálicas – com focinho achatado e face larga – que apresentam alterações respiratórias restritivas. “Eles tendem a ter uma maior dificuldade respiratória e com isso a prática de exercício físico intenso deve ser desestimulada”, explica o veterinário Marcio Waldman.

Teckel e Basset representam o grupo dos condrodistróficos, com patas mais curtas e corpos mais longos, sendo assim, também não devem praticar exercícios de impacto. “Filhotes não vacinados, cadelas no cio, cães com dificuldade de locomoção e animais diabéticos sem controle também não devem participar dessas caminhadas”, acrescenta.

Dogtrekking nota 10? Veja as dicas:

Alguns apetrechos podem ser de grande valia durante o percurso, como o uso das guias peitorais. “Elas minimizam o tranco sobre a coluna cervical”, recomenda o ortopedista, enquanto para o fundador da PetLove, o ideal é usar guias resistentes à tração e sugere um reservatório para água portátil. “É importante oferecer água, em pequenas quantidades, várias vezes durante o percurso”, reforça.

Iracema complementa que, para um cão de porte médio, é recomendável dispor de dois litros de água, que servirão também para molhar o animal sempre que puder.
Outro fator importante, segundo o veterinário Marcio Waldman, é adptar a atividade ao dia a dia do animal, e não mudar muito a rotina do cão. “Até uma a duas horas antes do exercício físico convém não dar muito alimento, pelo risco do animal vomitar. Por isso, é indicado levar um pouco de ração e oferecer após o final da prova”, recomenda.
Waldman chama atenção para outros comportamentos do cão durante a aventura. Segundo ele, durante uma longa caminhada, o animal vai querer descansar por algumas horas e isso é normal! Ao acordar, vai estar 100% revigorado, principalmente em termos de locomoção. “Um animal que não está aguentando mais a caminhada pode apresentar vontade de parar, ficar ofegante, língua para fora, respiração muito intensa, etc. O dono deve se preocupar em evitar forçar muito o cachorro. Nessa situação, descansos, paradas ou diminuição do ritmo podem ser importantes”, reforça o veterinário.
Os donos também precisam estar atentos ao comportamento do animal durante a jornada. Se o animal mancar ou evitar subir e descer dos locais, mesmo os baixos, pode ser indício de que está acontecendo alguma coisa de diferente. “Nesse momento é que o ser racional ‘humano’ tem que entender que prolongar o passeio pode ocasionar danos maiores ao animal”, observa o ortopedista.

Iracema Braun também sinaliza para a importância de manter o cão sempre na guia. “Há tantos perigos na trilha como na cidade. O cão pode caçar e se perder, se machucar ou até ser picado por uma cobra”, atenta.

E, para finalizar, quem quiser participar dessas caminhadas com o seu fiel companheiro, tenha em mente o conselho do médico Marcio Waldman: “Treino, treino, treino, moderação, moderação, moderação”, enfatiza.

Benefícios do Dogtrekking para os cães:

• Sair, conhecer novos ambientes;

• Melhora a circulação, deixa o pulmão mais eficiente;

• Afasta a depressão, aumenta a sensação de bem-estar;

• Mantém o peso em equilíbrio e emagrece;

• As caminhadas reúnem o cão e o dono;

• Socialização e adestramento de forma natural;

• Ouvir novos barulhos, sentir novas coisas, pisar em grama;

• Aumentar a autoconfiança do cachorro;

• Desenvolve novas conexões cerebrais;

• Aumenta o sistema imunologia;

• Melhora a qualidade de vida.

 Reportagem de Carolina Mouta, jornalista voluntária, colaboradora do Canal de Estimação.